E a vida faz-se na cozinha

O frenesim na cozinha é mais assustador para quem apenas observa. Movimentos mais ou menos coordenados, repetição exaustiva das mesmas técnicas, os mesmos procedimentos até conseguir que o produto desejado esteja perfeito.

Diferente da cozinha do dia-a-dia em casa e diferente até da cozinha de um restaurante ou hotel, competir no mundo da culinária passa para lá do simples sabor ou de uma boa apresentação. Existem regras muito concretas sobre como um prato deverá chegar ao cliente. A um cliente que, muito provavelmente, não saberá avaliar o corte da carne ou a combinação da guarnição. Mas competir com cerca de 45 equipas, vindas de 30 países, exige perfeição. E uma única técnica de culinária num prato pode levar horas para ser feita e, chegada ao fim, não estar perfeita.

Durante três dias, de manhã cedo até à manhã do dia seguinte, a vida fica-se pela cozinha. É preciso gostar muito desse frenesim, que exige organização num espaço partilhado por vários cozinheiros. Entre quatro paredes brancas, num ambiente por vezes quente, dezasseis cozinheiros cruzam-se apressadamente nas suas tarefas. Das arcas frigoríficas às bancadas. Partilha-se o espaço, mas partilham-se também ferramentas, utensílios e conselhos.

Desde corte de peças milimetricamente perfeitas, à escolha pormenorizada das melhores folhas de qualquer erva, até à limpeza de cogumelos, um por um, com um papel húmido. Passá-los por água seria estragar os cogumelos, portanto não chega sequer a ser opção.

Aceitar e ultrapassar os erros ou esquecimentos, repetir os passos até à exaustão e funcionar como equipa – por mais difícil que por vezes possa ser – é a rotina de uma semana inteira. Antes dessa semana, houve treinos durante meses, aproveitando todas as folgas dos trabalhos, já de si, intensos. Não existem férias, não existe remuneração para competir com outros países. Apenas existe um gosto incontrolável – para quem está de fora chega a ser difícil de perceber – pela profissão de cozinheiro. Um gosto que é aliado a um orgulho pessoal, muito pouco recompensado, por poder fazer parte da equipa que leva a cozinha portuguesa às competições.

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